A castração da mulher disfarçada de liberdade
27 jun
Há tempos a mulher é castrada pela sociedade de inúmeras formas, sendo responsabilizada por erros ou apenas por manifestações da natureza cometidos pelos homens. Em tempos pós-feminismo e revolução sexual, o machismo e a castração da mulher estão muito longe de acabar. Assustador é perceber que isso está tão camuflado e implantado no comportamento humano que na maioria das vezes, somos machistas e nem percebemos.
- Castração: Ação ou operação de castrar; capação; emasculação;eviração.
- Emasculação: 1 – Ação ou efeito de emascular. 2 – Castração de homem ou animal macho. 3 Bot – Remoção das anteras de uma flor, antes de desprender-se o pólen.
- Eviração: 1 – Ato ou efeito de evirar: castração, capação,emasculação. 2 – Perda da sexualidade.
- Capação: 1 – Ação de capar ou castrar animais; capa, castração.2 – Época em que se procede a essa operação nas fazendas de criação. 3 – Ação de capar ou cortar os rebentos de uma planta.
A questão da idade:
Estava lendo um livro sobre estilo pessoal e um dos capítulos tratava de mulheres acima dos 35 anos e como elas devem se vestir. Uma das “regras” abordadas pela autora é a de que essas mulheres devem evitar mini-saias, decotes muito profundos e (pasmei) regatas de alcinha, preferindo saias que terminem na altura dos joelhos, decotes super discretos e blusinhas de manga curta que não mostrem os ombros. Ela alega que à partir dessa idade, qualquer “pele” exposta se torna pornográfica e isso deve ser evitado.
Isso me incomodou. E me irritou e revoltou.
Nós queremos ser sexy e atraentes, cada uma com seu estilo e seus truques de sedução, umas mais discretas, outras não tanto, mas naturalmente queremos ser notadas e desejadas. Roupas e maquiagem são dois dos vários artifícios usados para ressaltar nossa beleza, charme e por que não, nossa sensualidade. Declarar que uma mulher acima dos 35 deixa de ser sexy e se torna vulgar ao mostrar os ombros ou as coxas é uma castração. Quem inventou essa regra? Baseado em quê? Opinião pessoal: A sociedade machista inventou baseada no machismo.
Desde pequena vejo e ouço regras que sempre achei absurdas. Que mulheres com mais de 40 ficam vulgares de cabelos longos, de mini-saia, de alcinha, entre várias outras coisas que somos livres para usar e abusar aos 20 e que passam a ser proibidas à partir dos 30. Quer dizer que nós somos naturalmente atraentes apenas durante os 20 anos e por isso podemos “mostrar” o que bem entendermos mas, à partir dos 30 temos que começar a esconder o corpo. A medida que o tempo passa, temos que esconder mais e mais. Pra cada ano comemorado depois dos 30, um modelo de roupa passa a ser proibido, de maneira que aos 40, a mulher tem que cortar o cabelo e usar vestidos até os pés de gola e manga longas, deixando apenas para as jovens o direito de mostrar alguma parte do corpo.
Não é pra menos que aos 27 anos eu já esteja escrevendo o epitáfio da minha juventude, me despedindo do meu charme e sensualidade jovens e me preparando para encarar o início do fim da minha beleza. Não é por nada que já me sinta ameaçada por mulheres apenas quatro ou cinco anos mais novas. Não é à toa que tenha recebido o diagnóstico de ansiedade generalizada, afinal, me restam apenas dois anos e meio para usufruir das minhas adoradas mini e micro-saias, das charmosas regatas e até mesmo do direito de me comportar com imaturidade e cometer vários erros.
É quase um holocausto. Nesse caso, são as mulheres com mais de 35 que são queimadas, jogadas de penhascos ou colocadas na câmara de gás, afinal, são velhas demais para servirem a sociedade e têm que dar espaço para as jovens.
A questão da imagem:
Desde crianças somos bombardeadas por imagens de mulheres seminuas ou completamente nuas, somos ensinadas que homens perdem a capacidade de pensar quando vêem uma mulher “gostosa” e que o que mais importa para eles é a imagem. Passamos a exigir muito do nosso corpo, o que é natural, já que queremos ser atraentes e notadas pelos homens (ou pelas mulheres, pra quem gosta). O problema é que o que a mídia nos ensina é que somos objetos que devem ser expostos para atrair o maior número de “admiradores” e desde muito novas sabemos que a concorrência é forte. Quem vai olhar para mim, baixinha, magra e coberta quando tem disponível imagens de loiras, altas e peitudas totalmente expostas? Quem vai me achar sexy vestida de preto com atitude séria quando tem à disposição imagens (falsas) de mulheres (pouco) vestidas de branco, vermelho ou qualquer outra cor e atitude vulgar? Quem vai me escolher aos 35 anos se tem disponíveis jovens frescas de 20?
Ao mesmo tempo que queremos ter a atenção dos homens e sermos sexy, queremos evitar a vulgaridade porque não gostamos de ser comuns. Simultaneamente somos expostas às mulheres objetos (e os homens estúpidos que são atraídos por elas) e às regras de como sermos sexy e atraentes sem nos tornarmos como elas. Aprendemos que os homens idolatram as objetos mas somos proibidas de abusarmos da nossa imagem porque temos o dever de nos libertarmos do machismo.
Nesse caso, qual machismo é maior? O de tornar a mulher um objeto sexual ou o de declará-la velha demais para ser um? O de deixar claro que ela precisa mostrar o corpo para ser atraente ou o de proibí-la de fazê-lo porque ela precisa ser inteligente e não supervalorizar a imagem?
A questão da educação (e da hipocrisia disfarçada de liberdade):
A mulher é castrada desde criança e até o fim da vida. Ela vê as “gostosas” da TV e da Playboy, quer ser tão gostosa quanto elas, é ensinada que seu corpo muitas vezes é mais importante do que qualquer outra coisa e ao mesmo tempo é proibida de usá-lo, sob a pena de se tornar mais uma vadia que cedeu ao “sistema machista”. Basicamente, ensinam uma coisa e cobram outra. E nós crescemos e somos educadas sob essa grande confusão e contradição.
A mulher é objeto e é uma baita mentira dizer que não. Se não é objeto vulgarizado para agradar a visão dos homens cujo intelecto é inversamente proporcional ao tamanho dessa vulgaridade, é objeto reprimido para agradar machistas hipócritas que “comem todas” mas exigem uma virgem imaculada para se casarem.
No Brasil, vemos as loiras siliconadas com bronzeamento artificial e corpo cheio de músculos e curvas quase masculinas imperando. Fazem tanto discurso homenageando a beleza da mulher brasileira mas na prática, exigem uma beleza totalmente artificial e nada tropical. Dois simples exemplos disso: A maioria das brasileiras tem cabelos cacheados/ondulados/crespos mas nas ruas elas são raridade, graças à ditadura do cabelo liso; A mulher brasileira tem o corpo caracterizado por seios pequenos/médios e quadril e retaguarda avantajados e, apesar disso, mais e mais mulheres se rendem ao silicone para seguir o que dizem ser a preferência masculina. Eu digo que a sociedade machista não apenas castra a mulher como também ofende a inteligência dos homens porque os define como seres imbecis, incapazes de pensar e ter opinião própria e cujo único objetivo na vida é “pegar” a maior quantidade de peitos enormes e nada mais.
Paralelamente à exposição exagerada do corpo feminino no Brasil, em alguns lugares da África, vemos mulheres tendo suas partes íntimas (e femininas) multiladas e costuradas para que não sintam desejos “impróprios” e possam dar (sem sentir) prazer apenas ao marido, quando este romper a costura que foi feita após a multilação.
Nós somos ensinadas que os homens são atraídos pelas mulheres vulgares que não se importam em mostrar sua intimidade mais profunda (Isso mesmo que você pensou!) e ao mesmo tempo somos cobradas a não ceder a esse tipo fácil de truque de sedução. Temos que competir com as mulheres objeto sendo sexy e atraentes discretamente, sem vulgaridade e sem deixar a imagem se sobrepor à inteligência. Lindo. E alguém sabe me dizer como fazer isso?Alguém sabe apontar o limite exato entre a vulgaridade e a sensualidade elegante? Alguém conhece uma fórmula fácil para ser super sexy, elegante, inteligente sem se deixar tornar um objeto e mantendo a bandeira do feminismo em pé?
Leia mais sobre a objetificação da mulher
A castração:
A castração ocorre de várias maneiras durante toda a vida da mulher, a maioria delas talvez imperceptíveis para quem ainda não se libertou da Matrix.
Somos castradas quando adolescentes porque não devemos sentir desejo sexual para não sermos taxadas de vadias. Ao mesmo tempo somos castradas pelos meninos adolescentes que são atraídos pelas siliconadas da Playboy enquanto nós ainda mal temos peitos. Somos castradas quando queremos ser gostosas mas somos proibidas porque temos que ser inteligentes. Quando estamos apaixonadas pelas novas curvas e queremos mostrá-las mas somos proibidas pelo pai (machista). Quando temos vinte e poucos (ou tantos) anos e sabemos que temos poucos anos de liberdade para mostrar o corpo, já nos preparando para a próxima castração que ocorre aos 30.
Somos bombardeadas com informação (a maioria inútil), comparação, competição e muita cobrança. Tudo isso escondido debaixo do machismo e do preconceito que, embora o mundo goste de declarar como superados, domina as sociedades cada vez mais. Eu digo cada vez mais porque o machismo está camuflado, disfarçado de respeito e liberdade e isso é muito pior e mais perigoso do que o machismo declarado.
É muito fácil entender o motivo pelo qual as mulheres estão enfrentando tantos problemas de stress e porque precisamos cada vez mais de terapias psicológicas. Porque é muito difícil assumir todos os papéis (contraditórios) que a sociedade nos impõe, não decepcionar nas conquistas e não adquirir uma insegurança enorme que nos paralisa cada vez que precisamos escolher para qual direção ir.
É um absurdo falar de liberdade da mulher enquanto ela é tratada e se deixa tratar como objeto. Enquanto milhares de mulheres vendem sua (falsa) imagem como objeto sexual, outras milhares são fisicamente castradas para agradar o futuro marido e milhares de outras ainda precisam fazer protestos pedindo pelo direito de usarmos mini-saias e não sermos estupradas porque estamos vestidas como “vagabundas“. E enquanto a sociedade prega a liberdade feminina mas faz diversas exigências de como a mulher deve se comportar, vestir e até pensar (ou não pensar).
A castração está longe de acabar, juntamente com o machismo e a hipocrisia de homens e mulheres.





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